Reportagem na ZH de domingo aborda o tema da integração e/ou unificação das polícias no Brasil. Vejam abaixo:
O FUTURO DAS POLÍCIAS
Em busca da integraçãoNo Brasil, quem prende não investiga. E quem investiga raramente prende. A PM faz uma parte do trabalho, a Civil outra. Sob o ponto de vista legal, perfeito. Está previsto na Constituição. Mas como cada um faz a sua, nem sempre a sociedade sai ganhando.
– Pense em dois autores escrevendo um texto. Um redigindo adjetivos e substantivos, e o outro, apenas os verbos e as preposições. Por mais talentosos que fossem, ficaria um Frankstein, não ficaria? É o que acontece com as nossas polícias – ilustra o antropólogo carioca Luiz Eduardo Soares.
Ex-secretário Nacional de Segurança Pública, Soares se utiliza da comparação para sustentar um ponto de vista que é regra entre pesquisadores e especialistas: a divisão de atribuições das polícias Civil e Militar está na raiz da má qualidade das investigações e da impunidade no país:
– A interrupção do ciclo do trabalho policial é irracional porque os diferentes momentos (prisão e investigação) são interdependentes. Os profissionais com quem eu tenho conversado dizem que essa ruptura é ruim.
Nos países desenvolvidos, há o ciclo completo. Aquela instituição que começa uma ação policial e prende um suspeito é responsável pelas investigações e pelo envio do caso à Justiça.
Além da legislação excludente, as polícias atuam como irmãos que se hostilizam. Sempre foi assim. Do Pampa gaúcho aos confins da Floresta Amazônica, um oficial dirá que PM é sinônimo de polícia, e um delegado não terá dúvidas: polícia mesmo é a Civil. Uma rivalidade que parlamentares, governadores e presidentes temem enfrentar.
Desde o início da década, há pelo menos dois projetos tramitando na Câmara dos Deputados e no Senado, ambos parecidos e que jamais foram à votação. De autoria do ex-deputado Ricardo Santos (PSDB/ES) e do senador Tasso Jereissati (PSDB/CE), eles prevêem autonomia aos Estados na organização de suas polícias. Nada indica que serão aprovados.
– As polícias serão unificadas? Continuarão sendo uma civil e outra militar? Serão várias ou apenas uma? O ideal é que os Estados decidam sobre isso. O problema é que as corporações têm muita força e dificultam qualquer mudança na Constituição – fala o ex-deputado Ricardo Santos.
Um dos projetos prevê a criação de polícias municipais
Um grupo de pesquisadores, respaldados pelo deputado Raul Jungmann (PPS/PE), elabora uma proposta revolucionária no campo da segurança pública. A idéia é que, aos poucos, polícias municipais de ciclo completo substituam as corporações. As prefeituras pioneiras seriam as que contam com 1 milhão de habitantes ou mais.
– Estamos em fase de elaboração do projeto. Se a idéia fracassar, perderemos uma grande chance de mudar a situação das polícias – diz.
Mesmo entre os que defendem uma polícia mais eficiente, a forma como a mudança ocorrerá está longe de ser consensual. Doutor em Direito pela Universitat Des Saarlandes, na Alemanha, o pesquisador Theodomiro Dias Neto entende que deve-se respeitar a história das duas corporações.
– A estrutura americana é das mais caóticas que se pode imaginar. Mas é o legado da polícia americana, e os americanos precisaram lidar com ela. Não é fácil mudar toda a estrutura. Imagina se tiver uma polícia em cada município do Brasil? – pondera.
Para Theodomiro, combater a corrupção na Polícia Civil e qualificar a formação dos profissionais seriam medidas que auxiliariam na transformação do quadro atual.
– A aproximação das duas organizações e o trabalho conjunto, sem necessariamente pensar numa nova organização policial, já melhoraria muito o trabalho que é feito – pondera.
O debate em curso é antigo. Entre as décadas de 50 e 60, a sociedade debateu a atuação das duas corporações, mas a supressão da democracia, com o golpe militar de 1964, sepultou a discussão. E acentuou as diferenças.
– Até o golpe, a Civil tinha mais prestígio e poder do que a Militar. Depois, ocorreu o inverso – conta Thaís Battibugli, doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP).
A ação das secretarias da segurança em Estados como São Paulo, Minas Gerais e Pará tem colaborado para estreitar laços. Nas três unidades da federação, há um esforço para aproximar a operação, a formação e a inteligência das duas polícias – o que não ocorre no Rio Grande do Sul.
Na governo federal, desde o início do governo Lula, a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) privilegia projetos que busquem a aproximação das forças.
– Somos favoráveis à integração de esforços, de corregedoria única e de academias integradas. São medidas que colaboram para aproximar as duas polícias e qualificar o trabalho – diz o pesquisador Guaracy Mingardi, diretor do Departamento de Políticas, Programas e Projetos da Senasp.