Blog do Cavalcanti

Notícias, estudos e reflexões sobre o sistema penitenciário, violência, criminalidade, segurança pública, política e temas sociais

6

de
outubro

Inaugurada Creche da Penitenciária Feminina

A Susepe e a Universidade Ritter dos Reis (Uniritter), inauguraram nesta segunda-feira a nova creche na Penitenciária Feminina Madre Pelletier. Com capacidade para 20 crianças de zero a três anos, filhas de detentas, o novo espaço tem 40m2 e foi instalado em área onde funcionava a antiga lavanderia. O prédio, reestruturado, abriga ambientes para descanso, recreação, alimentação, fraldário, banheiros infantis e adultos, além de uma pracinha com brinquedos ao ar livre.

 

Mães e filhos no novo espaço

A creche surgiu graças ao projeto de extensão universitária Liberdade pela Escrita, da Uniritter, realizada dentro da penitenciária, que incentiva a leitura e a escrita, em encontros semanais organizados por bolsistas, estudantes voluntários e professores dos cursos de Pedagogia, Letras, Arquitetura e Direito. Em 2006, o projeto conquistou o Prêmio Nacional VivaLeitura, arrecadando o valor líquido de R$ 17.154,00, usado na obra.

A diretora Sílvia Rangel fazendo seu pronunciamento

A professora Neiva Tebaldi Gomes, coordenadora do projeto Liberdade pela Escrita, abriu o evento explicando que o contato com o presídio feminino -“revelava uma grande precariedade do espaço em que viviam as crianças”. O reitor da Uniritter, Flávio Reis, ressaltou o trabalho da universidade, nas diversas áreas, para colocar em prática o projeto de instalação da creche. Já a diretora da Penitenciária Feminina Madre Pelletier, Silvia Rangel, agradeceu a presença de todos e a colaboração de diversas pessoas, que tornaram viável a criação da creche.

A coordenadora da creche, Marília dos Santos Simões, que é pedagoga e agente penitenciária, enfatizou que o espaço exclusivo permite melhores condições de saúde física e mental das crianças junto às mães. Segundo ela, -“as crianças brincavam sem as mínimas condições de ludicidade, entre outras tantas dificuldades”. Também presente ao evento, a chefe da Divisão Educacional da Susepe, Dione Mello, além de representantes da Susepe, Uniritter e funcionários da Penitenciária Feminina Madre Pelletier.

6

de
outubro

Entrevista com Juiz Sidinei Brzuska

O juiz Sidinei José Brzuska é o juiz fiscalizador das prisões da região metropolitana e concedeu entrevista à Zero Hora após a primeira inspeção no Presídio Central de Porto Alegre.

Zero Hora – Na manhã de quinta-feira, o senhor visitou o Presídio Central. Havia estado lá antes?

Sidinei José Brzuska – Já tinha estado lá, há bastante tempo, mas apenas na administração. O que eu conhecia mesmo do Central era de ler, ouvir falar.

ZH – O que o senhor achou do que viu?

Brzuska – A sensação que se tem é de que as galerias do Central são um misto de África, em guerra civil, e Afeganistão. As celas são completamente destruídas em sua estrutura de concreto e tijolos. O chão, meio pegajoso, parece que nunca é limpo. O cheiro é muito ruim. Há esgoto por toda parte. Existem cachoeiras de esgoto e água. É difícil de descrever em palavras. Eu sempre tive orgulho de ser gaúcho. Quando viajo, sempre tenho orgulho de ser gaúcho. Pela primeira vez, tive vergonha. Chego a me emocionar (enche os olhos de lágrima). É inadmissível que nós, gaúchos, que nos consideramos uma sociedade politizada, culta, evoluída, deixemos a situação ficar neste estado. São mais de 20 mil pessoas que entram no Central, todos os meses, são milhares de crianças que ficam nessas galerias, nesse esgoto, nessa verdadeira imundície. Não quero fazer terra arrasada, mas é uma vergonha mesmo.

ZH – Em 11 anos como magistrado havia deparado com algo semelhante?

Brzuska – Fiz toda minha carreira na magistratura visitando presídios. Nunca tinha visto nada parecido. Não existe.

ZH – Há algo parecido em algum Estado do país?

Brzuska – Não conheço todo o sistema carcerário do Brasil em detalhe. O Rio Grande do Sul se orgulha de não ter presos em delegacia, mas tem presos nessa situação. Não é um, nem dois, é uma cidade. Não sei se algum país do mundo tem uma situação tão ruim assim. Tem de chamar a atenção das pessoas porque algumas pensam que, por serem bandidos, os presos têm de sofrer. A sociedade, de um modo geral, faz vistas grossas. Desafio qualquer pessoa que veja isso e seja capaz de manter essa opinião.

ZH – O senhor pensa em fazer algo em relação à visita das crianças?

Brzuska – Não há como impedir que um filho ou uma filha visitem um pai. O que se tem de fazer é melhorar o sistema. A situação do Presídio Central é caótica ao extremo.

ZH – De tudo o que senhor viu, o que é mais chocante?

Brzuska – Talvez a questão do esgoto e da saúde pública. Acho que é o que mais choca. É muita sujeira, muito esgoto. Uma população muito grande, num espaço muito pequeno. É só vendo mesmo.

ZH – É possível algum preso ser reabilitado no Central?

Brzuska – No Presídio Central, acho impossível. A violação dos direitos humanos é evidente.

ZH – Por que a situação chegou a esse extremo?

Brzuska – É uma situação que vem de anos. Seria necessário um estudo mais aprofundado. O que se sabe é que a sociedade não gosta de presídios e há uma dificuldade para construção de novas casas. Mas não justifica. Alguém teve uma idéia de fazer uns pavilhões, lá atrás (no Central), um investimento enorme, prédios novos, que não são usados porque não têm capacidade de água, de esgoto, de luz… Acho que o destino do Central é o do Carandiru.

ZH – O senhor defende a implosão do Central?

Brzuska – Não é uma implosão instantânea. A gente tem de acomodar essas pessoas. Mas está a passos firmes rumo ao Carandiru.

ZH – Como o senhor pretende trabalhar na nova função?

Brzuska – O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) publicou uma resolução que determina que o juiz responsável pela fiscalização envie relatório mensal e também explique quais as providências que adotou para o correto funcionamento da atividade prisional. A solução do problema passa, a meu juízo, pelo Executivo. Nesse sentido, enviei um ofício à governadora Yeda Crusius, perguntando se o Executivo tem alguma proposta para o Central a curto, médio e longo prazo. Se existem essas propostas, quero saber se alguma delas será tomada pela atual administração. Protocolei na sexta-feira e estou aguardando uma manifestação.

ZH – O MP estuda pedir uma interdição total ou parcial do Central. O que o senhor acha?

Brzuska – Tomei conhecimento pela imprensa.

ZH – O que o senhor acha desse expediente?

Brzuska – Não tenho como me manifestar sobre isso ainda porque não conheço o teor. Se entrar um pedido dessa natureza, vamos ver como se encaminha isso.

ZH – O que deveria ser feito emergencialmente no Central?

Brzuska – A sociedade tem de saber o que está acontecendo no sistema penitenciário, em que condições esses presos estão cumprindo pena e o quanto isso afeta a vida das pessoas. Aqui nós estamos produzindo crime. Num segundo momento, temos de construir novas casas prisionais. E por que temos de conscientizar a opinião pública? Porque senão não são construídas casas prisionais. O Estado, lamentavelmente, só se movimenta na base da pressão. É por isso que tem de abrir o sistema. O presídio Central aumenta, por dia, em 17 o número de presos. Seria necessário construir uma penitenciária por mês para dar demanda para o Central.

ZH – A situação do Central coloca em xeque a idéia de Justiça?

Brzuska – Com certeza. É uma negação de Justiça.

6

de
outubro

Radiografia do Presídio Central

Na Zero Hora dominical realizaram uma reportagem de duas páginas sobre o Presídio Central de Porto Alegre (PCPA). Realmente este é o estabelecimento penal com situação mais crítica. O PCPA foi construído originariamente para recolher presos provisoriamente, eliminando na região metropolitana as cadeias das delegacias de polícia, prática ainda comum em diversos estados brasileiros. Mas faltam penitenciárias na região, obrigando a Susepe a manter presos condenados no PCPA. Caso tivéssemos penitenciárias em Viamão, Alvorada, Cachoeirinha, Gravataí, Canoas e outros próximos, o PCPA não seria problema e poderíamos implementar o projeto de transformá-lo em um centro de tratamento penal (ótimo projeto já concluído, mas que depende da abertura de vagas para o regime fechado).

Trabalhei dez anos no Presídio Central - de 1980 a 1990 - e desde aquela época a prisão já era considerada um barril de pólvora, principalmente a partir do ano de 1985. A partir daquele ano o perfil da massa carcerária mudou, já começaram a ocorrer brigas de gangues, mortes e informações sobre intenções de realizaram motins, o que de fato ocorreu a partir de 1987. Já naquela época era bem tenso o clima entre os servidores. Havia dias em que a turma de plantonistas na segurança não ultrapassava seis agentes penitenciários. Não recordo exatamente, mas entre 1985 a 1990 a população carcerária do estabelecimento esteve entre 1500 a 2000 presos (computando os recolhidos no Hospital Penitenciário). Tento imaginar o clima dentro do PCPA hoje em dia.

Abaixo o link com um mapa e dados do PCPA. Não confirmo os dados sobre os colchões, já que, segundo sei, é a casa que mais recebeu unidades desse item nos últimos anos.

http://zerohora.clicrbs.com.br/pdf/5192830.pdf 

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://cavalcanti.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.