Blog do Cavalcanti

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31

de
agosto

Livro sobre a Falange Gaúcha

REPORTAGEM NA ZH DOMINICAL SOBRE O LANÇAMENTO DO LIVRO

O grupo que conflagrou o cárcere gaúcho
Livro a ser lançado no dia 4 mostra como bandidos encarceirados se uniram para comandar ações e espalhar o terror dentro e fora das prisões entre 1987 e a metade da atual década

As cadeias gaúchas foram palco para as mais expressivas exibições do crime organizado no Rio Grande do Sul durante quase 20 anos, de 1987 a 2005. Deveriam ser locais hermeticamente fechados visando a punições exemplares para homens como Vico, Anão, Fernandinho e Melara. Que nada. Serviram de porto seguro para que articulassem seus negócios: roubar, traficar e matar.

Em meio a entradas, saídas e fugas do Presídio Central, de Porto Alegre, e das cadeias que formam o complexo de Charqueadas, bandidos se cruzaram, juraram vingança, firmaram pactos de sangue e, principalmente, acertaram operações conjuntas, espalhando terror por bancos, medo entre os gaúchos e sangue pelas ruas.

Foi neste ambiente carcerário já falido na década de 80 e propício ao caos que nasceu e se criou a Falange Gaúcha, organização de presos que comandou o crime durante quase duas décadas no Estado e enfrentou a polícia com armamento muito superior ao que estava ao alcance dos homens da lei. Foi a época em que carros-fortes eram parados nas estradas a tiros de fuzis AR-15 (uma arma, então, comum apenas nas ruelas dos morros do Rio). A Falange apresentou aos gaúchos o poderio de fogo do bandido carioca.

O relato deste período começa com uma rebelião no Presídio Central, em julho de 1987, comandada pelo assaltante de banco Vitor Paulo Mahus Fonseca, o Vico, e chega ao fim com a morte de Dilonei Melara, outro assaltante de banco, em janeiro de 2005. Unindo estes dois personagens que se conheceram, mas nunca atuaram juntos, está o jornalista Renato Dornelles.

Aos 44 anos, metade deles vividos na profissão de jornalista, Dornelles foi juntando aos poucos as histórias que cobriu durante 13 anos como repórter de Polícia de Zero Hora. Esteve em cenas de crimes e acompanhou de perto as diversas rebeliões no sistema carcerário. Puxou pela memória e investiu em pesquisas. Relacionou fatos e cruzou informações sobre a vida de bandidos e a atuação de diferentes quadrilhas que tiveram algo em comum: viveram para desafiar a lei e transformar a sociedade em vítima.

Reportagem que deu origem a livro saiu no Diário Gaúcho

Da junção dessas peças surgiu a reportagem Falange Gaúcha – O Presídio Central e a História do Crime Organizado no RS, publicada durante 10 finais de semana do ano passado no jornal Diário Gaúcho. Vencedor do Prêmio Ari de Jornalismo de 2007 (o maior do jornalismo do Rio Grande do Sul), o material foi transformado em livro pela RBS Publicações.

Importante destacar o tom de equilíbrio da história contada por Dornelles. Embora não seja uma peça musical, achar o tom é fundamental quando se fala num assunto em que é comum a mistura do ritmo dos mocinhos com a ginga dos bandidos.

Se exagerar no agudo, dará a entender que a batida do bandido é a trilha a ser seguida, o que soará grave. Bandido é bandido, polícia é polícia, já disse o falecido assaltante carioca Lúcio Flavio e deixa claro Dornelles no texto. A obra não dá espaço para aquela velha lenda criada nos bons círculos sociais que atribui às comunidades carentes a preferência pela proteção da marginália, como se o glamour do Robin Hood da história justificasse a opressão do presente.

Que conversa fiada. Comunidade carente gosta do mesmo que os refinados círculos sociais: segurança e proteção do Estado e dignidade para viver.

alexandre.bach@diariogaucho.com.br

ALEXANDRE BACH
Ficha técnica
O que: Falange Gaúcha – O Presídio Central e a História do Crime Organizado no RS, de Renato Dornelles
RBS Publicações – 144 páginas
Lançamento: dia 4 de setembro, às 19h30min, na livraria Saraiva Mega Store, do Praia de Belas Shopping
Quanto: R$ 32,90. O livro também é vendido para os assinantes de Zero Hora com desconto, ao preço de R$ 24,90. Os assinantes devem ligar para 0800 051-3323
Trechos do livro
NO HOSPITAL
“Às 11h30min do dia 29 de dezembro, o médico Mário Marques, diretor do hospital (do Presídio Central), recebia seis técnicos em seu gabinete. Iriam começar uma reunião de rotina quando houve uma brusca interrupção: o preso Rudinei, armado com um revólver, invadiu a sala. Atrás dele, entraram outros apenados, empunhando facas:
– Todo mundo no chão – gritou Rudinei.
Sem vacilar, o médico e os técnicos se atiraram no piso.
Com álcool recolhido da farmácia do hospital, os presos encharcaram as roupas de alguns reféns. A todo instante, repetiam que ateariam fogo, caso suas exigências não fossem atendidas ou se a polícia invadisse o local.”
NA RESTINGA
“Faltavam poucos minutos para a agência fechar quando os três homens entraram. Jorge Luís portava dois revólveres calibre 38. Tatau tinha uma pistola .380 em cada mão. Claudinho, uma metralhadora argentina FMK-5, capaz de disparar 30 tiros por vez.
– Ninguém se mexe. Isso é um assalto – gritou Claudinho, deixando imóveis clientes e funcionários.
A ação foi rápida e frustrante para o trio, que esperava encontrar bem mais do que os R$ 10 mil que havia no cofre. Eles fugiram em um Monza roubado horas antes. Depois de rodarem alguns quilômetros, seguindo em direção ao bairro Restinga, depararam com uma viatura da Brigada Miliar. Àquela altura, mais de 10 viaturas já estavam envolvidas na perseguição. Os bandidos abandonaram o Monza e, após uma rápida corrida a pé, calçaram um taxista. Claudinho, encostando a metralhadora no rosto do motorista, foi direto:
– Salta fora – gritou.”

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