Blog do Cavalcanti

Notícias, estudos e reflexões sobre o sistema penitenciário, violência, criminalidade, segurança pública, política e temas sociais

19

de
julho

Artigo na Zero Hora

Para quem não conhece, Isis Nelly é colega nossa, Agente Penitenciária, atualmente exercendo a função de administradora do Presídio Estadual de Torres.

Parabéns à Isis pelo texto, o qual reproduzo no blog

Quem tem medo do "grampo", por Isis Nelly dos Santos, cientista social 

De repente, nosso país passou a discutir acaloradamente a questão dos direitos constitucionais dos cidadãos. Melhor dizendo, de uma parte dos cidadãos.

De repente, o uso de algemas passou a ser qualificado como constrangedor e arbitrário. Nunca ouvimos antes alguém preocupado com os milhares de indivíduos conduzidos algemados em todo o país, mas é claro, nenhum deles jantou em nossa casa, freqüentou os mesmos ambientes ou se aproximou de nossa família, senão, quem sabe, com uma arma na mão. Afinal, nossa lógica simplista nos informa: são bandidos, até certo ponto não são gente como a gente!

De repente, o recurso da interceptação telefônica passou a ser qualificado como abusivo, intimidativo (para quem mesmo?) e merecedor de severas restrições. Não ouvimos qualquer testemunho de cidadão honesto reclamando que teve sua vida devassada por uma escuta judicialmente autorizada. Mas sem dúvida deve ser aviltante quando são expostos os diálogos de "cidadãos acima de qualquer suspeita", aqueles, aliás, que jantaram lá em casa ou que estavam na festa do Doutor… tramando sua locupletação em estéreo.

Por mais que nossos poderes constituídos queiram negar, é preciso que se diga, sem rodeios e sem prolegômenos: não existem duas leis em nosso país, mas com certeza existem duas exegeses: uma destinada aos comuns do povo e outra aplicável àqueles que se colocaram próximos dos que fazem e aplicam as leis. Para estes, na verdade, pouco importa o quão claras sejam as evidências de afronta à lei. Aos amigos, as benesses da lei. Não há que se perguntar com quantas festas, presentes e doações esses "cidadãos acima de qualquer suspeita" se aproximaram do poder, não há como acreditar que pessoas tão finas, elegantes e de tanto bom gosto possam praticar crimes.

E, de repente, passamos a discutir a propriedade do uso de algemas. Afinal, a qualquer momento poderá ser aquele nosso amigo (quem sabe, nós mesmos) quem estará passando por esse constrangimento.

E, de repente, passamos a temer que o país se transforme num grande Big Brother. Afinal, como será possível tramar, desviar, roubar, caluniar, destruir os inimigos, sem ter a segurança do sigilo?

Vamos falar sério! Quem se preocupa com tais direitos e os defende com tanta veemência, atualmente, o faz em causa própria ou de seus segundos e terceiros. Em nenhum momento está preocupado com os direitos constitucionais dos cidadãos sem expressão - note-se aqueles que pagam por toda essa festa.

Por todos nós que "pagamos a festa", que continuem a algemar os doutores e nos mostrem claramente que ao menos nessa hora eles são iguais a nós! Que ouçam todas as conversas suspeitas, devassem as vidas desses notórios ladrões refinados. A sociedade agradece.

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