21
de
maio
Editorial ZH
Rendição ao tráfico
A reportagem que mostrou o tráfico e o consumo de drogas nas cercanias da sede da Secretaria da Segurança Pública em Porto Alegre provocou uma crise entre o secretário e o ouvidor-geral da Segurança, além de uma ação policial contra usuários. Mas o secretário José Francisco Mallmann tem razão: o caso não se constitui exclusivamente numa questão de polícia. O flagelo da droga, que corrói a sociedade e está presente na maioria dos atos criminosos, que dizima famílias e estimula a criminalidade, é um problema de todos os cidadãos. O enfrentamento dessa chaga, portanto, exige ao mesmo tempo combate sem trégua aos traficantes e medidas permanentes que vão desde alertas para potenciais usuários sobre os riscos da droga até alternativas no âmbito da saúde pública para recuperar quem já se escravizou ao consumo de entorpecentes.
Na mesma noite em que a denúncia se tornou conhecida, um mutirão das polícias civil e militar, integrado por delegados e sob o comando do próprio secretário da Segurança, fez uma varredura na área. A sociedade tem consciência de que não basta esse tipo de operação, muito menos numa região circunscrita, para eliminar ou mesmo atenuar o problema, como reconhece o próprio responsável pelo combate ao crime. Ainda assim, é óbvio que o tráfico se instala e os consumidores se sentem à vontade para se drogar em plena via pública quando percebem o caminho livre para agir - nas proximidades do QG da segurança pública e em todo o Estado. O combate permanente a esse mal, portanto, pode não ser suficiente, mas isso não quer dizer que possa ser relegado a um plano menos importante, independentemente de faltarem recursos ou servidores para executar a missão.
A verdade é que a sociedade não sabe exatamente o que fazer com viciados e consumidores, nem como agir em situações extremadas diante deles. Na maioria dos casos, os praticantes de crimes como assaltos, furtos, roubos e seqüestros relâmpagos e mesmo os responsáveis por agressões familiares agem sob o efeito de drogas ilícitas, o que constitui motivo suficiente para o problema exigir mais atenção do setor público. Ao mesmo tempo, não passa dia sem que surjam informações de pais acorrentando filhos ou mesmo se utilizando de métodos ainda mais violentos na tentativa de defendê-los e de defenderem-se dos danos de drogas, particularmente do crack. Ainda que a luta contra a droga seja um desafio de cada cidadão, essa responsabilidade coletiva não exime o poder público da necessidade de prover a sociedade de prevenção, tratamento de viciados e repressão aos traficantes.
Certamente, é difícil imaginar que, com o grau de criminalidade registrado hoje no Estado e no país, seria possível se livrar facilmente dos efeitos do narcotráfico, que se mantém através de uma teia de ramificações internacionais. O inaceitável, porém, é a tolerância à generalização do consumo e do comércio de entorpecentes, pois acaba passando aos contribuintes que pagam impostos na expectativa de um mínimo de segurança a sensação de rendição ao tráfico.
Ação conjunta
Ainda que a luta contra a droga seja um desafio de cada cidadão, a tendência não exime o poder público da necessidade de prover a sociedade de prevenção, tratamento de viciados e repressão aos traficantes.

