28
de
março
Tratamento
Para especialistas, regeneração é difícil
O adolescente com jeito de criança que confessou 12 mortes usou do deboche ao explicar a razão de identificar apenas seis das suas vítimas.
- Os outros a polícia vai ter de descobrir - desafiou .
O garoto de 1m60cm e cerca de 50 quilos falou à imprensa nas dependências da 4ª DP de Novo Hamburgo. O delegado Enizaldo Plentz sugeriu outra explicação para a postura:
- Sabemos que ele também assalta, embora ele negue. Ele não quer nos dizer nada sobre esses outros seis homicídios porque deve ter tido a participação de um comparsa, um foragido. Acredito que ele está encobrindo esse comparsa.
Vestindo uma camisa do Grêmio, bermuda jeans e um tênis Adidas, o garoto bem articulado disse estar arrependido por ter tirado vidas. Mas em seguida se contradisse:
- Ainda quero matar quem matou meus primos. Mas não vou atrás deles. Um dia vou encontrar com eles na rua. Aí eu atiro.
Pela manhã, algemado em uma cadeira da sala de investigações, ele não parava de movimentar pés e mãos e respondia com objetividade:
- Matei pessoas que me batiam quando eu era menor, que me davam tapas. Outro eu matei porque ele tentou estuprar minha irmã.
O adolescente apreendido na quarta-feira é morador do loteamento Kephas, no bairro São José. No local, a exemplo do que ocorre em favelas cariocas, trabalhadores são obrigados a conviver com criminosos. Filho de um pintor e de uma industriária desempregada que está em liberdade provisória por tráfico, o adolescente tem três irmãos, com idades entre três e 14 anos.
Rede pública não disporia de tratamento adequado
Chorando em frente ao Centro de Atendimento Socioeducativo (Case), onde o filho acabara de ser internado, à tarde, a mulher de 32 anos desabafou:
- Devo ter sido a pior mãe do mundo. Não posso acreditar que o filho que eu criei esteja falando que fez tudo isso.
Embora a mãe não confirme, relatos dão conta de que o garoto apanhava na infância, e convivia com tios que hoje estão presos. Até os 14 anos, aparentava ser calmo e obediente.
- O que a gente ouve aqui na escola é que, no ano passado, ele viu um tio matar uma pessoa e, desde então, entrou para esse mesmo mundo. Parece que ele gostou de fazer isso - relata uma ex-professora do garoto, que estudou até a 4ª série da Educação de Jovens e Adultos.
Seja um doente ou bandido, especialistas ressaltam não existir tratamento disponível nos serviços públicos estaduais capaz de regenerar o adolescente.
- Com certeza, uma internação em qualquer Centro de Atendimento Socioeducativo do Estado não é o suficiente. É preciso um trabalho intensivo, que envolva a família, com avaliações periódicas e psicoterapia - disse a coordenadora do Centro de Saúde Mental da Secretaria da Segurança Pública, Suzana Braun.
Se depender da projeção da ex-presidente da Fase, a pedagoga e advogada Liliane Saraiva, o futuro dele está definido:
- O Estado não tem condições de atender esse jovem. Pelas características que apresenta, ele tem um comprometimento patológico, precisa de atendimento especial, e não temos isso para oferecer. Como ele, existem vários jogados na Fase. É necessária a criação de unidades especiais de tratamento.
Os casos
O adolescente disse que matou 12 pessoas, mas a Polícia Civil identificou seis casos (cinco em Novo Hamburgo e um em Dois Irmãos). Em cinco destes, testemunhas reconheceram o garoto como autor e, em um dos casos, ele descreveu detalhes que combinam com a cena do crime:
7/11/2007 - Tiago Júlio Schaeffer, 20 anos - A vítima, conhecida como Cavalo, teria assediado a namorada de um primo do garoto, que resolveu matá-lo com um tiro à queima-roupa.
23/11/2007 - João Siqueira Chaves, 42 anos - Segundo o garoto, teria tentado estuprar sua irmã. Foi morto com dois tiros na cabeça. Tinha passagem na polícia por homicídio, roubo e estupro.
6/12/2007 - Osvanir Soares, 24 anos - Os policiais ainda desconhecem o motivo da morte.
23/12/2007 - Alexsander Silveira Chaves, 18 anos - O motivo do crime, desta vez ocorrido em Dois Irmãos, seria ciúme. O garoto disse que a vítima estava saindo com sua namorada.
3/3/2008 - Adriano Martins de Oliveira, 23 anos - O jovem afirma ter matado Adriano porque ele teria roubado seu revólver. Não há testemunhas, mas a descrição do crime bate com as informações coletadas pela polícia.
24/3/2008 - Elúcio Miranda Ramires, 39 anos - O comerciante foi executado com 20 tiros. Dono de uma casa de bailes, teria proibido a entrada do garoto em uma festa e ainda lhe desferido um tapa na cara.
Os outros seis crimes
A polícia trabalha para identificar quem seriam as outras seis vítimas que o adolescente disse ter assassinado. Ele não mencionou nomes nem locais, mas o primeiro teria ocorrido há oito meses. Depois de identificados, terá seguimento a investigação.


Comentário por Mazé — 28 de março de 2008 (8:58)
Bom dia Cavalcanti!
Em primeiro lugar quero parabenizar pela reportagem!
Essa reportagem retrata a maioria de famílias da atualidade… E lembrando quando se pensa em violência, criminalidade muitos se remetem as condições financeiras daquele indivíduo, deixando bem claro que muitos chegam a isso não é porque nasceu numa família pobre. Pobreza não é sinônimo de violência e nem de que é incapaz de conseguir o que se quer na vida. O fato desse jovem ser assim, está ligado a história de vida dele… a maneira como esse indivíduo foi tratado quando criança. Muitos pais tem seus filhos e deixam aí soltos, não põe limites, não tem diálogo… muitos dizem não ter tempo pra isso e acabam que saem perdendo… Se enganam… seus filhos não vai ser aquela eterna criança e quando isso acontecem ficam se perguntando será que eu fui uma pior mãe?
Pior mãe pode não ter sido ou pode ter sido boazinha demais digo no sentido de não por limites a criança e só gratificar a mesma. Ele se contradiz em algum momento da entrevista dizendo que não quer mais matar e depois fala que quer.
Com toda certeza este jovem precisa de tratamento especial com acompanhamento da família.