28
de
março
Adolescente “Serial Killer”
Matador aos 16 anos
Confissões de um adolescente franzino e quieto estarreceram ontem o Estado.
O garoto de 16 anos declara ter cometido 12 assassinatos nos últimos oito meses no Vale do Sinos. Pairam dúvidas sobre se ele é mesmo autor dos crimes. Caso isso se confirme, pode ser um indesejável recorde na história do crime no Rio Grande do Sul.
Morador do loteamento Kephas, na periferia de Novo Hamburgo, L. foi preso ao ser procurado pela Polícia Civil por um assassinato. O adolescente se escondia na casa de um assaltante foragido. Para surpresa, admitiu outros cinco homicídios.
Ouvido mais uma vez pelos policiais da 4ª DP de Novo Hamburgo, L. disse ser autor de 12 homicídios, mas não forneceu novos detalhes, sequer o nome das supostas vítimas.
O delegado Enizaldo Plentz vê com reservas a confissão das 12 mortes, mas está convencido de que pelo menos a metade vai parar mesmo na conta do adolescente. Em cinco casos existem testemunhas de que L. seria o autor. Com relação ao sexto, o jovem dá riqueza de detalhes.
O adolescente afirma que matou por vingança. Seria o caso de Elúcio Ramires, comerciante de 39 anos e dono de um salão de baile, com antecedentes criminais por roubo e receptação. Ele teria dado um tapa em L. para impedir que ingressasse no local.
- Ele se achava o machão da vila, me deu na cara. Aí voltei e dei 20 tiros nele - contou L., que está desde ontem internado provisoriamente no Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) de Novo Hamburgo.
Um misto de doenças psíquicas com o ambiente conturbado e cercado de maus exemplos pode estar por trás do comportamento violento do garoto. É no que acredita o médico e professor do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Renato Zamora Flores. Ele é um dos autores do polêmico projeto de pesquisa que pretende estudar a vida e o cérebro de infratores internados, como forma de identificar as origens do comportamento agressivo.
O caso do homicida de 16 anos, na avaliação de Flores, pode ser resultado de uma mente abalada pela família.
- Não parece que seja genético. Um tratamento médico poderia amenizar o quadro, mas será preciso convencê-lo a querer ser outra pessoa. É possível que o sonho dele seja entrar para o hall da fama da criminalidade. Me parece ser uma pessoa fria, onipotente, com ego inflado - comenta.
Entre a loucura e a delinqüência
L. diz que sempre matou por vingança, traça de si mesmo um perfil de justiceiro, mas a verdade pode ser outra. Zero Hora entrevistou pelo menos quatro moradores da Vila Kephas que conhecem o adolescente. Eles garantem que o rapaz começou matando por raiva, mas depois começou a aceitar dinheiro para cometer homicídios.
- Ele matou um amigo envolvido em assaltos. Fizeram uma "vaquinha" para que desse uns tiros no bandido. Tinha também um traficante pagando para ele matar quem devia dinheiro de droga - relata uma dona de casa.
Isso trouxe a ele uma coleção de inimigos. Tanto que um garoto de 13 anos, vizinho de L., relata que quase foi morto no seu lugar:
- Um sujeito botou um revólver na minha cabeça e só desistiu de puxar o gatilho quando o convenci de que não era o matador que procuravam.
Um rapaz que trabalhou com L. numa fábrica de calçados, fazendo palmilhas, aponta outra mentira do jovem. Ele garante que L. cheirava cola e fumava crack, embora o adolescente negue o uso de drogas. Inclusive, já foi apreendido por posse de crack.
E qual será o futuro desse adolescente? O artigo 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê oito medidas socioeducativas para infratores de 12 anos a 17 anos. Elas podem ser cumpridas em meio aberto ou fechado. Vão desde advertência, prestação de serviços comunitários, obrigação de reparar o dano causado à internação pelo período de três anos. No caso de L., que confessou ter matado 12 pessoas, a previsão é de que fique três anos internado por homicídio. O prazo, porém, pode ser estendido, diz o delegado Christian Nedel, da 1ª Delegacia para o Adolescente Infrator da Capital.
De qualquer forma, acrescenta o especialista em Direito Penal juvenil, o adolescente pode ficar internado apenas até os 21 anos. Mesmo que seja considerado demente e, teoricamente, sem noção dos atos que cometeu. A partir daí, volta para trás das grades só se cometer novos crimes.
O delegado Enizaldo Plentz define com uma palavra a possibilidade de L. ficar só quatro anos preso: "absurdo".

