Entrevista com o novo Presidente do TJ na ZH de hoje:
27 de janeiro de 2008
"Sou contra a pena de morte"
Entrevista: Arminio da Rosa, futuro presidente do Tribunal de Justiça do EstadoO desembargador Arminio da Rosa, futuro presidente do Tribunal de Justiça, garante que a relação com o Executivo - deteriorada pelos embates entre a governadora Yeda Crusius e o atual presidente do Tribunal, Marco Antônio Barbosa Leal - vai melhorar. Evita apontar falhas em outros poderes, ressaltando que sua tarefa é cuidar do Judiciário e fazer com que preste um serviço melhor. Para isso, tem metas como investimento em informática. Sua principal ação à frente do Tribunal deve ser o reforço de recursos para a Justiça de 1º grau, cartão de visitas do Judiciário.
Aos 54 anos, 31 deles dedicados à magistratura, Arminio diz que os juízes cada vez mais têm consciência de que as pessoas precisam de sentenças que resolvam seus problemas e não de textos com longas citações. Abaixo, leia trechos da entrevista de Arminio a Zero Hora no gabinete da 1ª vice-presidência do TJ, cargo que ocupará até assumir a presidência, no dia 1º de fevereiro:
Zero Hora - O senhor tem dito que seu foco de atuação será a Justiça de 1º grau. Por quê?
Arminio da Rosa - A primeira instância é onde o Judiciário tem o maior contato com a sociedade. É onde podemos conseguir maior celeridade dos processos, efetividade.
ZH - Que medidas de gestão do Judiciário podem servir de exemplo?
Arminio - O Judiciário foi pioneiro em informatização. Há juízes que julgaram em 2007 mais de 10 mil processos, mais que muitos tribunais do Brasil. Isso se deve à informática. E temos de avançar na virtualização do processo. Há processos que podem ser totalmente virtualizados, como o de execução fiscal.
ZH - O último ano foi tenso entre o Executivo e o Judiciário. O atual presidente do TJ chegou a afirmar que a governadora faltou com a palavra na questão do orçamento. É possível prever uma relação diferente em 2008?
Arminio - A relação vai melhorar. Até porque todos têm consciência de que não é possível manter relações conflituosas. Como tudo na vida, isso tem um limite.
ZH - Como o senhor analisa o veto da governadora ao projeto do subsídio?
Arminio - Vejo o veto como um ato dentro da legitimidade. É lógico que eu preferia que não houvesse o veto. Acredito que, da forma como o projeto foi conduzido na Assembléia, o veto deva ser rejeitado.
ZH - Se o subsídio é apenas uma forma de acabar com os chamados penduricalhos que compõem o contracheque dos magistrados, por que inclui aumento salarial?
Arminio - A magistratura é nacional. Há uma previsão constitucional dos percentuais relativos ao subsídio. Não podemos conceber que um juiz do Estado seja considerado inferior a um juiz de Santa Catarina, a um juiz federal, a um procurador.
ZH - Em 2007, relatórios da Fazenda apontavam o Judiciário como o poder que fez menos cortes para compensar a queda na arrecadação. Por quê?
Arminio - Cada poder tem suas peculiaridades. O Judiciário não pode aceitar que ocorram cortes que inviabilizem a sua atuação. Estamos no limite do possível. De qualquer forma, temos sido solidários.
ZH - Como os recursos vêm da mesma fonte, não seria justo que os cortes fossem proporcionais para todos?
Arminio - Já nos acomodamos à situação do Estado. Impor ao Tribunal de Justiça as variáveis de arrecadação implicaria o Judiciário se submeter ao Executivo. Isso não podemos aceitar.
ZH - O atual presidente do Tribunal chegou a propor a diminuição dos repasses para a União, o que chegou a soar como proposta de calote. O senhor pretende propor algo assim?
Arminio - Fico restrito ao Judiciário. O Executivo tem de tratar do que afeta o Executivo.
ZH - A Assembléia coloca na internet despesas de gabinete e diárias. O Tribunal pensa em ampliar a transparência de seus gastos?
Arminio - O Judiciário já é transparente. Mas, sem dúvida nenhuma, com o dinheiro público, não há motivo para que não se dê uma satisfação à sociedade.
ZH - Haverá um site divulgando o valor das diárias do Judiciário?
Arminio - O Judiciário é um ilustre desconhecido. As pessoas não nos conhecem. A nossa linguagem com os processos também. Muitas vezes as pessoas não entendem as nossas decisões. A linguagem tem de mudar.
ZH - Mas vão divulgar o valor da diária?
Arminio - A diária de um desembargador no Estado é de R$ 343,56. De um juiz de entrância final é de R$ 309,20. E para fora do Estado é R$ 858,90. Quem viaja no tribunal? Os juízes corregedores e ocasionalmente alguém da administração, presidente, vice ou corregedor-geral, em deslocamento para fora do Estado, em algum evento, reunião de colégio de presidentes, de colégio de corregedores, a posse de ministro do Supremo. Mas isso é ocasional. Não há nenhuma objeção a que se venha a publicar isso.
ZH - Quantos são os cargos de confiança (CCs)?
Arminio - São 1.353 CCs entre 7.560 servidores. É um número expressivo de CCs. Minha proposta é restringir o número de CCs, rever aqueles cargos que existem no TJ e não precisariam ser de comissão. Essa é uma idéia que se tem de prestigiar o quadro. E vamos abrir concurso.
ZH - O atual presidente preferiu não cortar os supersalários, que ultrapassam o teto, mas congelá-los. O senhor pode tomar uma posição diferente?
Arminio - Supersalários? A gente tem de respeitar o direito adquirido. Quando começamos a desrespeitar o direito dos outros, amanhã será o nosso.
ZH - O atual presidente do Tribunal defende a pena de morte. Qual é a sua opinião?
Arminio - Por formação, eu sou contra a pena de morte. Respeito a posição do presidente, mas sou contra. Não levou a nada. Temos de rever a criminalização de condutas.
ZH - O senhor é a favor de penas alternativas?
Arminio - Sem dúvida nenhuma. Temos de rever onde é que levou essa solução da reclusão, se os presídios efetivamente levam a alguma coisa. Para mim, a restrição de liberdade individual é a última medida, para aquela pessoa que, se deixada na rua, seria o homem-bomba.
ZH - Com o avanço da violência, o cidadão não consegue entender que talvez seja melhor prender menos.
Arminio - É, mas prender mais levou a alguma coisa? A criminalização levou a alguma coisa? Por que o juiz solta? Por causa de nossa legislação. Talvez tenha de se rever a Lei de Execuções Penais, se não é extremamente branda.
( adriana.irion@zerohora.com.br / leandro.fontoura@zerohora.com.br )
ADRIANA IRION E LEANDRO FONTOURA